Segurança Condominial e Limites Legais: Polícia Civil avisa sobre Riscos e Procedimentos
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A gestão da segurança em condomínios é um dos maiores desafios para síndicos e administradoras. Frequentemente, a pressão por resultados e o sentimento de insegurança levam à adoção de práticas que, embora pareçam eficazes, escondem armadilhas jurídicas letais. Para lançar luz sobre esse tema, o blog do BRCondomínio entrevistou Carlos A. D. Júnior, Investigador de Polícia de Classe Especial da Polícia Civil de Minas Gerais. Com a autoridade de quem atua na linha de frente da inteligência e investigação, ele detalhou os erros mais recorrentes nas portarias e o impacto direto que atitudes 'heroicas' podem ter nas investigações e no caixa do condomínio.
Nesta análise profunda, exploramos por que o porteiro nunca deve agir como um policial e como a nova Lei de Abuso de Autoridade serve de alerta para a gestão privada.
O Erro estratégico: a portaria vulnerável
O primeiro ponto abordado na nossa entrevista foca na integridade física do funcionário e na manutenção do sistema de segurança. O policial é enfático: o maior erro de um porteiro diante de um crime é abandonar seu posto.
"Sair da portaria para verificar uma ocorrência é um dos atos mais perigosos que existem. Ao fazer isso, o porteiro se expõe ao agressor, perde a proteção da guarita e deixa todo o condomínio vulnerável. Sem ninguém para operar portões e alarmes, o invasor ganha o controle total da situação", alerta o agente.
O abandono do posto não é apenas uma falha operacional; é um erro tático que transforma o monitor em vítima. A recomendação da Polícia Civil é que a guarita seja o "bunker" de informações: o porteiro deve se trancar, acionar os botões de pânico e narrar a situação via telefone para o 190.
Abordagens, revistas e o risco do constrangimento ilegal
Um erro comum (e muitas vezes incentivado por moradores) é a prática de revistar prestadores de serviço, funcionários domésticos ou entregadores. O policial entrevistado destaca que essa "atitude bem-intencionada" costuma resultar em graves complicações judiciais.
"Tentar revistar pessoas ou veículos, mesmo sob suspeita, é um terreno perigosíssimo para o condomínio. Isso pode ser enquadrado como constrangimento ilegal, gerando processos por danos morais e até acusações de discriminação", explica.
No âmbito jurídico, o Artigo 146 do Código Penal é claro: constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda, é crime. Como o porteiro não tem autoridade legal para realizar buscas pessoais, qualquer resistência da pessoa abordada pode resultar em uma ação judicial onde o condomínio, como empregador, terá que arcar com indenizações vultosas.
O dilema do flagrante: o que a Lei de Abuso de Autoridade ensina ao síndico
Um dos momentos mais complexos da nossa entrevista foi sobre impedir a saída de suspeitos. O policial esclareceu que, embora o Artigo 301 do Código de Processo Penal permita que "qualquer do povo" prenda quem estiver em flagrante delito, a prática em condomínios exige cautela extrema.
Para aprofundar este ponto, precisamos analisar a Lei nº 13.869/2019 (Lei de Abuso de Autoridade). Embora ela se aplique formalmente a agentes públicos, seus princípios de proporcionalidade e necessidade são espelhados pela justiça comum ao julgar ações de danos morais contra condomínios.
Análise dos Riscos Baseada na Lei:
Privação de Liberdade sem Respaldo (Art. 9º): Se o porteiro retém uma pessoa por uma "suspeita" que não se confirma como flagrante claro, o condomínio pode ser acusado de manter alguém em cárcere privado ou sofrer uma ação indenizatória por privação de liberdade indevida.
Exposição e Vexame (Art. 13): A lei proíbe expor o detido a situação vexatória ou constrangimento não autorizado por lei. Se o porteiro segura um suspeito e permite que moradores o filmem, o hostilizem ou o agridam verbalmente, o condomínio responde pelo dano moral e pela exposição indevida da imagem.
O Risco da Lesão Corporal: O policial adverte que "se o porteiro optar por reter o suspeito e isso gerar algum tipo de lesão ou situação de risco, ele e o condomínio podem ser responsabilizados por excesso doloso". Ou seja, se o suspeito se ferir ao tentar fugir de uma retenção feita por um civil (porteiro), o "agressor" perante a lei pode passar a ser o funcionário do condomínio.
A recomendação da autoridade é clara: "Pode impedir? Sim, em flagrante. Deve impedir? Não. É mais seguro monitorar e acionar a polícia."
A preservação da cena do crime: o trabalho pericial
A entrevista revelou um dado alarmante: muitos criminosos não são presos porque o local do crime foi "contaminado" antes da chegada da polícia.
"O porteiro, muitas vezes tentando ajudar, limpa o local, recolhe objetos ou tenta 'organizar' a área. Isso destrói evidências fundamentais, como digitais e vestígios biológicos, que poderiam identificar o autor via banco de dados da perícia", lamenta o policial civil.
Para o síndico, a instrução deve ser rígida: ocorreu um crime? Ninguém entra, ninguém limpa. O isolamento da área é a única forma de garantir que o trabalho da Polícia Civil seja efetivo. Uma cena de crime preservada aumenta em mais de 70% as chances de identificação técnica de um invasor.

A falha na comunicação e o registro de dados
O tempo é o maior inimigo da investigação. O policial apontou que o hábito de avisar o síndico antes da polícia é um dos maiores entraves para o flagrante. Além disso, a falta de dados técnicos na portaria dificulta o início do inquérito.
O porteiro deve atuar como um coletor de dados. Segundo a entrevista, em caso de ocorrência, a polícia precisa imediatamente de:
Características exatas do suspeito: (Altura aproximada, cor da pele, vestimentas, tatuagens, direção de fuga).
Dados de veículos: Placa, modelo e cor.
Registros de entrada: Se o suspeito entrou como prestador, o porteiro deve ter anotado a empresa e o horário real da entrada.
"O porteiro que não anota dados essenciais de prestadores deixa a polícia sem informações úteis. Em caso de furto, saber qual apartamento o prestador visitou e o horário que saiu é o que permite o cruzamento de dados e a emissão de mandados de busca", afirma o agente.
O perigo das informações extraoficiais
Outro ponto sensível é a disseminação de boatos. O policial alerta que o porteiro nunca deve emitir opiniões sobre a autoria de um crime para os moradores.
"Dizer 'acho que foi fulano' pode gerar confusão e processos de calúnia e difamação. Informações devem ser passadas apenas para a autoridade policial e para a administração do condomínio".
Essa conduta evita que o condomínio se envolva em brigas interpessoais e garante que a investigação corra sob sigilo, como manda o código de processo penal.
O Conselho de Ouro para a Gestão
Ao final da nossa entrevista, pedimos ao policial um único conselho para os síndicos brasileiros. Sua resposta resume a necessidade de profissionalização da categoria:
"O porteiro não deve discutir, ameaçar, revistar ou tentar segurar suspeitos. Isso gera riscos físicos e complicações legais. O papel dele é observar, manter a calma, registrar informações precisas e preservar as imagens das câmeras."
Segurança em condomínio não se faz com confronto, mas com inteligência e protocolo. Onde a tecnologia do BRCondomínio entra para facilitar o registro de dados, o treinamento humano entra para garantir que esses dados cheguem à polícia de forma correta e segura.
Resumo de procedimentos para síndicos e porteiros:
Prioridade Zero: Ligue 190. Nunca espere a autorização do síndico para chamar a polícia em caso de crime em andamento.
Postura Defensiva: Mantenha-se dentro da portaria. Use o sistema de câmeras para ser os "olhos" da polícia até a chegada da viatura.
Foco no Registro: Anote tudo. Placas, nomes, horários e características físicas valem mais para a polícia do que uma tentativa de luta corporal.
Isolamento: Não limpe ou arrume nada após um crime. Espere a liberação da autoridade policial ou da perícia.
Quer profissionalizar a segurança do seu condomínio? O BRCondomínio oferece ferramentas de controle de acesso e registro que garantem que sua portaria permaneça segura.





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